A prevalência de problemas de sobrevivência e a pressão causada pela crise económica afecta e desvia os cidadãos da luta por causas que nesses períodos se afiguram secundárias, como a do movimento e expressão das actividades artísticas e culturais, defesa do património, a expressão de massa crítica sobre a governação da Polis ou a reforma das mentalidades, actividades que definem e expressam a evolução cultural duma comunidade e o seu grau de participação plural e crítica. E isso, se bem que compreensível, não é aceitável, pois reduz a sociedade como soma de opiniões e tensões escrutináveis e reduz o debate de ideias e a dinâmica na acção, focados na crise e nas águas estagnadas, ou na redução da Cultura ao mero espectáculo, e a expressão da criatividade individual ou colectiva à realização de eventos por vezes marcados por dificuldades financeiras, de apoio ou até de qualidade tolhida por dificuldades várias desde a sua génese.
Portugal, e a nossa comunidade em particular, passam hoje por uma avassaladora falta de empenho em causas e acções próprias duma sociedade plural e pró-activa: o espectro do desemprego e dos trabalhos precários fragiliza a juventude, que já não se mobiliza para causas colectivas e prefere o hedonismo supostamente rebelde das subculturas desviadas e desviantes; a classe média, tradicionalmente aberta e motor da sociedade batalha para sobreviver, e os opinion makers encartados parecem digladiar-se numa cruzada perversa de maledicência acerca do país e das suas virtualidades.
No meio deste ambiente muito tipicamente português há que resistir e mobilizar os que acreditam em causas e querem trabalhar por uma cidadania activa, dialogante, interventiva e multiplicadora de inovação e criatividade. Contra os novos vencidos da vida e ainda que correndo o risco de pregar no deserto.
E a resistência estrutura-se em união e organização. Das associações, dos grupos, e dos que individualmente produzem Cultura, cavalgam a Imaginação e batalham pela afirmação de projectos e talentos.
Baluartes de resistência e cidadania durante o período do Estado Novo, as associações hoje existentes irromperam no pós 25 de Abril como cogumelos, sendo numericamente hoje mais de 40.000 distribuídas nas vertentes cultural, desportiva, sócio-profissional ou de solidariedade. Mas se ser associativista é uma forma de dizer que se quer estar activo como cidadão - actor em prol duma participação efectiva e do legítimo exercício da democracia cultural- na vertente de cultura para todos, e com todos- tal não impede que a mudança de paradigma que as novas solicitações da sociedade global e da informação impõe exija que se ultrapassem algumas panaceias.
A panaceia da falta de formação de novos dirigentes, articulados com as realidades do tempo que passa e sem espírito corporativo, de imobilismo na preservação de rotinas ou incapazes de congregar novas sinergias.
A panaceia da eterna falta de verbas e da perspectiva de olhar para as associações sobretudo para a preservação da vertente patrimonial, das sedes e equipamentos, desenquadrada do fim último de congregar vontades, mobilizar opiniões, e gerar actos de cultura e civismo.
A panaceia do individualismo hedonista que desvaloriza o trabalho de equipa ou colectivo em benefício das figuras, num estereótipo transmitido por um modelo de sociedade onde o Eu vence o Nós, mas de forma volátil, efémera e perversa.
A panaceia da falta de investimento na inovação e na ruptura com certas práticas, reproduzindo uma "cultura de corpo" estática, distanciada das necessidades para que muitas vezes essas associações foram criadas, facto espelhado naquelas que apenas mobilizam para jogar o dominó ou assar o courato, mas deixaram de ter desporto activo, de produzir cultura da terra para importar cantores de moda efémeros e dissonantes, ou de se rever com o conjunto da população, num multiplicar por esse país fora de inúmeros Cinema Paraíso decadentes e ansiosos por revitalização.
A subsidiodependência, a suburbanidade de escolhas culturais, o divórcio com as forças mais dinâmicas das comunidades, e o espírito - há que dizê-lo - imobilista - de certos dirigentes - fazem os pavilhões às moscas, os teatros a cair de podres, os balneários sem água quente, tudo símbolos que ninguém quer herdar ou assumir, e logo de pouca atractividade.
É na subversão deste estado de coisas que o associativismo, com novos modelos de financiamento, com novos e empenhados dirigentes, de braço dado com as novas tecnologias e sob o desígnio de parcerias profícuas poderá singrar.
Vivemos numa época na qual emerge um novo conceito para o qual a actividade dos actores e agentes da Cultura é chamada a envolver-se num processo dinâmico com impacte económico e cultural: o das vantagens criativas. Se se almejar a implementação de uma classe criativa crítica, dinâmica e com talentos. Se houver organização, que se relacione com o tecido empresarial , com pólos de acção e atracção, poder-se-á criar um cluster da cultura que inclusivamente terá efeitos multiplicadores na economia e na apelatividade dos locais onde habitamos, tornando-os melhores e líderes de tendência.
Sendo Sintra, no quadro português um ninho em potência e na sequência do branding em torno das vantagens culturais de Sintra como modelo de atracção ( serra, mar, romantismo, artes plásticas, ambiente, etc ), porque não apostar em aglutinar e ajudar a organizar os produtores de Cultura para a criação duma estrutura de apoio e retaguarda que sirva simultaneamente os diversos operadores culturais, garantindo-lhes visibilidade, assessoria e suporte técnico?
Preocupados com estes e outros problemas que se põe num quadro sintrense espartilhado, onde muitos trabalham de costas voltadas e desconhecendo o Outro,e orientados para a necessidade de dar uma resposta efectiva e dinamizadora
Reunidos a 14 de Março de 2009 na Escola Profissional Alda Brandão de Vasconcelos, em Colares
Os abaixo subscritores desta Carta de Intenções comprometem-se a trabalhar para a fundação e lançamento de uma Plataforma que se debruce sobre os problemas e necessidades dos diversos grupos e fazedores de Cultura em Sintra ,sem bulir com as suas especificidades e opções, visando entre outros:
-a entreajuda e cooperação, num quadro de democraticidade interna de funcionamento, rotatividade no preenchimento de lugares de responsabilidade e coordenação, delegação de tarefas e espírito de grupo, e auscultação permanente de todas as opiniões, no quadro regulamentar a definir.
-a criação de um núcleo de trabalho que abarque as áreas da formação e gestão de planos de formação, seja dos quadros das associações ou agentes culturais integrantes da Plataforma, seja de terceiros, com meios próprios ou em parcerias.
-a elaboração dum Plano de Informatização dos aderentes visando a divulgação das suas actividades e a sua gestão interna, sobretudo dos dotados de menos recursos materiais e humanos.
-o recenseamento , caracterização da formação e qualificação de aderentes, seus quadros e associados ,fazendo o prévio levantamento de existências, meios e recursos, de molde a se criar um banco de produtores que possam fornecer serviços aos demais e á comunidade, valorizando a sua capacidade artística.
.-a melhoria e apoio à estruturação associativa interna.
-a divulgação da legislação do sector cultural, dos programas de apoio, das candidaturas a apoios externos, com a possível criação de um Núcleo de Apoio a Projectos Associativos.
-o apoio á gestão financeira e optimização dos meios de pagamento das quotizações e contributos, sobretudo nas aderentes onde essa expressão tem real impacto na sua vida associativa.
-o estabelecimento de parcerias com o sector público e privado, de forma a obter contrapartidas financeiras, nomeadamente nas áreas da venda de publicidade, informação, comunicação e imagem.
-o estabelecimento de parcerias/protocolos/contratos programa com a Câmara Municipal, Juntas de Freguesia e sector empresarial de forma a obter apoios financeiros particularmente com as áreas de formação e apoio técnico de consultoria.
-a atenção à estrutura de custos, reduzindo ao máximo eventuais desperdícios e a concepção de que sempre que possível cada projecto de evento ou actividade deve ser auto sustentado.
-a criação de Folha Informativa, e Portal actualizado periodicamente com as iniciativas da Plataforma e da vida e actividades dos seus aderentes, com Agenda Cultural e de Actividades exaustiva e de divulgação generalizada
-a previsão de criação de um Centro de Documentação e Apoio aos aderentes, onde se possa de forma regular dar apoio aos mesmos.
-a fixação do contributo físico, material ou monetário,e sua periodicidade, que cada aderente possa dar no contexto das suas especificidades e recursos financeiros, tendencialmente de forma a não pesar na sua gestão financeira.
-a interacção com a sociedade civil, empresas, universidades e comunicação social de forma a estabelecer parcerias de interesse mútuo.
- a criação um núcleo de apoio jurídico, técnico e financeiro e de apoio a candidaturas e formulação de projectos culturais que forneça assessoria a todos os que dela careçam em moldes a definir
-a criação de meios de difusão dos eventos de todos os produtores culturais que venham a aderir á iniciativa, num quadro a definir, via Internet ou suporte físico, com ligação para os sítios de internet dos aderentes e criação do estatuto de membro.
-o apoio à venda e divulgação dos materiais e meios de divulgação das actividades dos aderentes.
-o apoio recíproco entre aderentes, potenciando apoios e troca de informações nas suas actividades seja ao nível material ou humano, seja na prossecução de regalias e descontos nas actividades pagas e eventos promovidos aos membros e aderentes da Plataforma, em moldes a definir.
Apoio e entre ajuda significam optimizar a gestão do tempo e centrar os produtores na sua tarefa prioritária e matricial que é criar. Daí a necessidade de ferramentas materiais e institucionais que fortaleçam o movimento associativo cultural sintrense, lhe dêem uma voz reforçada e criem laços entre eles, hoje dispersos e fragmentados, organizativamente anémicos.
Para tanto, e no imediato, os subscritores, em nome individual ou em representação de associações já existentes, comprometem-se a de imediato integrar um grupo de trabalho que no prazo de 30 dias elabore um modelo organizativo, com regulamento, estrutura jurídica e órgãos de decisão, que mediante mecanismos de adesão que especifique, promova na cooperação e diálogo a constituição duma Plataforma de Associações e Agentes Culturais do Concelho de Sintra.
É desde já declarado pelos subscritores que os mesmos desempenham ou representam actividades associativas ou individuais na esfera cultural e artística da área do concelho de Sintra, que não são movidos por fins de luta político- partidária, religiosa ou corporativa, e que se pautarão pelo respeito pelas manifestações artísticas, culturais e estéticas dos demais aderentes, num quadro de respeito, igualdade, proporcionalidade e boa fé.
Colares,aos 14 de Março de 2009